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Pesquisa inédita refuta o FUD de que mineradores comandam preços no Bitcoin

Um relatório brasileiro publicado nesta semana desmistifica a suposta influência de mineradores sobre os preços do Bitcoin. O material completo é exclusivo para assinantes da Paradigma Education, mas o Criptomoedas Fácil teve acesso aos pontos principais

Segundo os pesquisadores, os dados que normalmente se usa para se ilustrar o “poder de fogo” de mineradores não são suficientes para caracterizar relações significativas entre o comportamento deles e os preços de mercado.


Fluxos mensais de bitcoin indo de pools de mineração para exchanges. Dados da Token Analyst.

Sobre Narrativas

“Ideias não sobrevivem porque são verdadeiras. Mas sim, porque são interessantes.”

Narrativas (e seus contadores) fazem a festa em mercados com bastante assimetria de informação. No caso do Bitcoin, chegam a ser cômicas as explicações que alguns comentaristas dão para o que acontece com os preços. Já vimos altas serem atribuídas a tweets; e quedas serem atribuídas a fake news. Trump, o presidente da China, e até Craig Wright já foram citados pela mídia como influenciadores de reviravoltas nas cotações.

Um alvo comum dessas narrativas são os mineradores. Em 2018, um embate entre eles presenteou a grande mídia com a justificativa perfeita para a queda dos 6 mil para os 3 mil e poucos dólares por BTC. Em 2019, um tema recorrente tem sido a tal “capitulação dos mineradores” – evento hipotético que muitos aguardam julgando ser pré-requisito para novas altas históricas.

Essas histórias fazem sentido? Temos alguma evidência de que mineradores de fato exercem influência desproporcional sobre os preços?

Ilustração por Maggie Appleton.
Ilustração por Maggie Appleton.

O Quanto Mineradores Controlam da Oferta Disponível?

O primeiro argumento levantado pelo relatório diz respeito à representatividade de mineradores no mercado de bitcoin. 

Toda nova oferta (moedas recém criadas) passa pelas mãos de um minerador. É comum associar esse fato à ideia de que mineradores exercem controle sobre o lado da oferta – mas, no Bitcoin, não é bem assim. 

A curva de emissão assimptótica (que desacelera com o tempo) garante que, hoje em dia, por exemplo, movimentações no estoque existente de bitcoin sejam muito mais relevantes (volumosas) do que quaisquer fluxos de moedas recém-criadas.

Para ilustrar essa noção, a Paradigma derivou o indicador MSV (“Miner’s Share of [on chain] Volume”, ou “Proporção dos Mineradores no Volume on-chain“). O gráfico abaixo mostra que, por mais que mineradores controlassem 100% do tráfego de moedas no começo de 2009, essa representatividade já caiu para menos de 0.1% em mero par de anos:


Proporção do Volume on Chain que é oriundo de recompensas por bloco. Dados da Paradigma Education.

Isso sem nem levar em conta o volume de negociações que transcorre off-chain, e que já representa a esmagadora maioria do capital a circular pelo mercado. A animação a seguir reforça o argumento, comparando lado a lado, ao longo dos anos, o nº de BTCs recém-minerados, o volume total on chain, o volume em mercados à vista e ao volume em mercados de derivativos de bitcoin.

Fluxos de Saída: de Mineradores para Exchanges

Mesmo que mineradores representem menos “poder de fogo” do que algumas manchetes apocalípticas levam a entender, é preciso considerar sua capacidade de acumular reservas e “arbitrar o valor do trabalho que produzem” ao longo do tempo.

A hipótese de que constituem uma porção mais “educada” do mercado, e portanto mais “informada” quanto à direção futura deste, leva muitos a acreditarem que suas movimentações de “venda” podem guardar algum caráter preditivo sobre – ou até “causar” – variações nos preços.

Para testar essa hipótese, os pesquisadores da Paradigma se debruçaram sobre os fluxos de bitcoin que saem de endereços controlados por pools de mineração e vão parar em exchanges – munidos de dados mapeados pela empresa londrina Token Analyst.

Correlações

A principal descoberta da análise é a de que nenhuma das pools monitoradas na amostra têm padrões de movimentação para exchanges significativamente correlacionados com variações nos preços. Em outras palavras, na amostra observada, movimentos das pools, sozinhos, não descrevem com precisão os movimentos nos preços do bitcoin. De maneira geral, não dá pra dizer que mineradores “despejam moedas nas exchanges” quando “sentem que as cotações vão despencar”, nem que “acumulam ativamente” quando percebem que se chegou “ao fundo de um mercado de baixa”. 

Mesmo quando se isola as séries mais ativas na amostra (Slush e TOPBTC), não emerge quase nada de novo. Os pesquisadores testaram ainda agregações diferentes, para avaliar se um comportamento regimentado por parte dos mineradores não poderia significar que os impactos de suas eventuais vendas fossem sentidos somente ao longo de períodos mais extensos. Mas dados semanais ou mensais tampouco produziram coeficientes de correlação notáveis (veja abaixo).

Correlograma para Fluxos de Saída para Exchanges vs. Variações nos Preços em diferentes agregações.

Um teste de correlação cruzada também foi feito para buscar relações entre os sinais em função de um atraso aplicado a um deles (ex: “preços caem violentamente 5 dias depois de largas movimentações para exchanges“). 

Não retornou valores estatisticamente significantes, acusando alta probabilidade de que as séries simplesmente não sejam correlacionadas.

Há muitas outras nuances sobre como os dados são calculados, processados, e o que de fato significam. A verdade não é preto no branco como às vezes gostaríamos que fosse.

A seção do relatório sobre heurística é especialmente interessante. Seguir o rastro de mineradores na blockchain pode ser mais complexo do que parece. Para os mais minimalistas, esta talvez seja a conclusão do estudo que mais perdure na cabeça – e sirva de lembrete para não se engolir qualquer narrativa sobre eles sem antes se questionar.

Para ler o relatório completo (paywall): CLIQUE AQUI